A doença do olho seco é multifatorial: sintomas parecidos podem estar relacionados a mecanismos diferentes e precisam de avaliação individualizada.
Ardência, sensação de areia e visão embaçada podem parecer sinais simples. Mas, quando se repetem ou começam a interferir na leitura, no trabalho, nos estudos ou no descanso, merecem ser compreendidos.
A doença do olho seco é multifatorial. Isso significa que ela não depende de uma única causa, mecanismo ou alteração. Produção lacrimal, evaporação, estabilidade do filme lacrimal, inflamação, pálpebras e sensibilidade ocular podem participar do quadro em diferentes combinações.
Por isso, duas pessoas com queixas parecidas podem precisar de avaliações e cuidados diferentes. O sintoma é importante, mas não conta toda a história.
Por que a doença do olho seco é multifatorial?
Segundo a definição do TFOS DEWS II, a doença do olho seco é uma doença multifatorial da superfície ocular associada à perda da homeostase do filme lacrimal e a sintomas oculares. O relatório também reconhece papéis etiológicos para a instabilidade do filme lacrimal, a hiperosmolaridade, a inflamação e o dano da superfície ocular, além de alterações neurossensoriais.
Em linguagem simples, a lágrima precisa permanecer relativamente estável sobre o olho para lubrificar, proteger e contribuir para uma superfície óptica regular. Quando esse equilíbrio se altera, podem surgir desconforto e mudanças na qualidade da visão.
O filme lacrimal tem componentes com funções diferentes. A camada lipídica ajuda a reduzir a evaporação; a camada aquosa participa da hidratação e da limpeza; e a camada mucínica contribui para a distribuição da lágrima sobre a superfície ocular.
Leia mais: entenda como funciona a estrutura da lágrima.
Quais sintomas podem aparecer?
Os sintomas variam entre as pessoas e também podem mudar ao longo do dia. Entre as manifestações possíveis estão:
- Ardência ou queimação;
- Sensação de areia ou de corpo estranho;
- Vermelhidão e irritação;
- Lacrimejamento reflexo;
- Visão embaçada ou oscilante;
- Visão que melhora temporariamente ao piscar;
- Cansaço visual durante a leitura ou o uso de telas;
- Sensibilidade à luz;
- Coceira;
- Desconforto ao usar lentes de contato;
- Piora no fim do dia.
A American Academy of Ophthalmology explica que o olho seco pode causar ardência, visão embaçada, sensação de corpo estranho, vermelhidão, irritação e lacrimejamento. A presença de lágrimas nos olhos não exclui a possibilidade de olho seco: a irritação pode provocar lacrimejamento reflexo.
Ter um ou mais desses sintomas não confirma o diagnóstico. Outras condições oculares podem causar queixas semelhantes, e a intensidade do sintoma nem sempre corresponde diretamente ao que aparece em um exame.

O que pode contribuir para o quadro?
As causas e os fatores associados são variados. Dependendo da pessoa, podem participar:
- Alterações na produção ou na composição da lágrima;
- Evaporação acelerada do filme lacrimal;
- Inflamação da superfície ocular ou das pálpebras;
- Alterações nas glândulas de Meibômio;
- Envelhecimento e mudanças hormonais;
- Doenças sistêmicas, incluindo algumas doenças autoimunes;
- Uso prolongado de lentes de contato;
- Cirurgias oculares anteriores;
- Determinados medicamentos;
- Exposição a vento, fumaça, ar muito seco ou ar-condicionado;
- Atividades prolongadas que reduzem ou alteram o padrão de piscar, como leitura e uso de telas.
Esses fatores não têm o mesmo peso em todas as pessoas. O uso de telas, por exemplo, pode estar associado à redução do piscar durante atividades de atenção visual, mas não explica todos os casos de olho seco.
A American Academy of Ophthalmology recomenda informar ao oftalmologista todos os medicamentos de uso contínuo e eventuais condições de saúde, porque esses dados podem contribuir para a compreensão do quadro.

Por que a avaliação precisa ser completa?
A avaliação não deve se basear apenas em um sintoma ou em um teste isolado. Pense nela como um mapa do funcionamento da superfície ocular: cada informação ajuda o oftalmologista a entender uma parte diferente do quadro.

A American Academy of Ophthalmology descreve a avaliação dos olhos, das pálpebras e do padrão de piscar, além de testes que podem analisar a qualidade, a espessura, a produção ou a estabilidade das lágrimas.
A relação entre sintomas e resultados clínicos também pode variar. Uma pessoa pode apresentar sintomas importantes sem alterações expressivas em determinado teste, enquanto outra pode ter alterações observadas no exame e relatar pouco desconforto. A interpretação deve ser feita pelo profissional, considerando o conjunto de informações.
O soro autólogo pode fazer parte do cuidado?
Em casos selecionados de doença da superfície ocular, o oftalmologista pode discutir o uso de colírio de soro autólogo como uma opção terapêutica.
O soro autólogo é produzido a partir do soro obtido do sangue do próprio paciente e processado em condições controladas. Ele contém componentes biologicamente relevantes e pode auxiliar a superfície ocular em situações específicas. Isso não significa que seja indicado para todas as pessoas com doença do olho seco.
A evidência precisa ser interpretada com cuidado. A revisão da Cochrane sobre colírios de soro autólogo encontrou possível melhora de sintomas em comparação com lágrimas artificiais no curto prazo, mas observou pouca informação sobre resultados de longo prazo e limitações importantes nos estudos. A certeza da evidência foi classificada como baixa ou muito baixa em parte das comparações.
Uma revisão sistemática publicada em 2023 também concluiu que a efetividade do soro autólogo permanece incerta com os dados disponíveis. Os autores relataram uma pequena melhora de sintomas em comparação com lágrimas artificiais após duas semanas, mas não identificaram benefício consistente para outras medidas e destacaram limitações dos dados.
Portanto, o artigo não permite definir concentração, frequência, duração, elegibilidade ou combinação com outros tratamentos. A indicação deve ser individualizada e acompanhada por oftalmologista.
Leia mais: o que é o soro autólogo e como ele é produzido.
Quando procurar atendimento prioritário?
Procure atendimento médico prioritário se houver:
- Dor forte;
- Perda visual súbita;
- Secreção intensa;
- Olho muito vermelho;
- Sensibilidade intensa à luz;
- Trauma;
- Dor ou vermelhidão associada ao uso de lentes de contato;
- Piora rápida;
- Suspeita de infecção.
Esses sinais não devem ser conduzidos apenas com informações encontradas na internet.

Entender a causa é o primeiro passo
A doença do olho seco pode envolver produção lacrimal, evaporação, inflamação, pálpebras, ambiente e sensibilidade ocular.
Por isso, sintomas parecidos não significam necessariamente a mesma causa ou o mesmo cuidado.
Ardência, sensação de areia, lacrimejamento e visão embaçada merecem atenção quando persistem, se repetem ou interferem na rotina.
Evite o autodiagnóstico e não inicie tratamentos por conta própria.
Converse com um oftalmologista para entender as possíveis causas dos sintomas e as opções adequadas ao seu caso.
Ciência que cuida. Clareza que conforta.
Fontes consultadas
- TFOS DEWS II — Definition and Classification Report. Define a doença do olho seco como multifatorial e descreve a perda de homeostase do filme lacrimal, os sintomas e os principais mecanismos envolvidos. Leia mais sobre a definição do TFOS DEWS II.
- American Academy of Ophthalmology — What Is Dry Eye? Symptoms, Causes and Treatment. Fonte clínica para sintomas, camadas da lágrima, causas e aspectos da avaliação. Leia mais na American Academy of Ophthalmology.
- Pan Q, Angelina A, Marrone M, Stark WJ, Akpek EK. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2017;2:CD009327. Revisão sobre colírios de soro autólogo para olho seco, com limitações e baixa ou muito baixa certeza em parte das comparações. Leia mais na Cochrane.
- Quan NG et al. Autologous Serum Eye Drops for Dry Eye: Systematic Review. 2023. Revisão sistemática que considera incerta a efetividade do soro autólogo com os dados disponíveis. Leia mais na revisão sistemática.
